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25 março 2009

Ilustração para contos russos

Ontem, chegou pelo correio um pacote da Editora Aquariana / DeLeitura com os primeiros volumes da série Contos Mágicos, um projeto editorial que visa resgatar narrativas da tradição oral de várias culturas e reapresentá-las ao público jovem.
Iniciando a série, temos Contos Vikings, Contos Chineses, Contos Indianos e Contos Russos, este último para o qual tive o prazer de elaborar uma ilustração de capa. Olhando meu trabalho inserido no contexto desta série fiquei cheio de orgulho.
Confiram. Deve chegar às livrarias em breve.

13 junho 2008

120 anos de Fernando Pessoa

Poucos lembraram, mas hoje completamos 120 anos do nascimento do maior poeta da Língua Portuguesa.

"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."






21 março 2008

Dia Mundia da Poesia

Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento,
Atravesso noites e dias
No vento.

Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

27 novembro 2006

Mário Cesariny (1923 - 2006)

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS nasceu no dia 9 de Agosto de 1923 em Lisboa. Freqüentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e estudou música com o compositor Fernando Lopes Graça. Considerado o mais importante representante poeta português da escola Surrealista, encontra-se em 1947 com André Breton, fato determinante no desenvolvimento de seu trabalho literário. Ainda nesse ano participa, junto com Alexandre O'neill, Antônio Pedro etc., do Grupo Surrealista de Lisboa. Algum tempo depois, por não concordar com a linha ideológica do grupo, afasta-se de maneira polêmica e funda o "Grupo Surrealista Dissidente". Principal representante do Surrealismo português, Mario Cesariny, no início de sua produção literária, mostra-se influenciado por Cesário Verde e pelo Futurismo de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ao integrar-se ao Grupo Surrealista, muda o seu estilo, trazendo para sua obra o "absurdo", o "insólito" e o "o inverossímil". Além de poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo, também dedicou-se a às artes plásticas, sobretudo à pintura.

Rua do Ouro

Ai dele que tanto lutou e afinal
está tão só. Tão sozinho. Chora.
Direcção da Companhia Tantos de Tal.
Cinquenta e três anos. Chove, lá fora.

Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A ele ou à carteira?)

Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sozinho.
Mas reage:que diabo. Afinal...
E olha para o cofre cheínho.

Sim estou só ainda bem por que não? ele diz
batendo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.

Seis e meia. Ó neurastenia
o homem que venceu está de borco
e sente uma grande agonia
que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.

É da carne de porco ele diz
vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.

Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
diz que é feliz diz que está muito bem.

Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sozinho.

Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?

Sim, reage: Esta noite a Leonor
amanhã de manhã o Salemos
e depois? Ah o novo motor
veremos veremos veremos

Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.

Os filhos? esperam que ele morra.
A mulher? espera que ele morra.
O sócio? Pede a Deus que ele morra!
Só a Anita não quer que ele morra!
Ai, maldita carne, murmura
vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E veste o casaco e o gabão.

Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.

O homem que venceu matou-se
na margem mais escura do rio
ao volante dum belo Packard

24 junho 2006

Isto sim, isto não.

Não, isto não é uma obra de nenhum artista neo-concreto.





É só mais um dia terrível em uma grande cidade, e muita gente deveria ser responsbilizada por isto.












Sim, isto é a obra de um artista.



E muita gente quer processar ele por isto.

20 junho 2006

Que importa

Tem um tipo de pessoa que anda, se veste e age como qualquer um. De longe, parece mais um dos muitos perdidos no meio da multidão, mas, de repente, tira um caderno da bolsa e começa e escrever, esteja onde estiver. Para tudo e só escreve ininterruptamente por um tempo que pode variar de um minuto a muitas horas. É quase uma compulsão.
Tenho verdadeira fascinação por gente com essa capacidade de parar o tempo e abrir esses pequenos portais pra realidades distantes e inacessíveis às pessoas comuns. Minha amiga Roberta é uma dessas pessoas. Descobri seu caderno por acaso e desde então já ilustrei três textos seus, mas acho que só agora consegui fazer uma imagem que ficasse à altura.

19 junho 2006

António Aleixo

O pára-raios na Igreja
Serve para lembrar aos ateus
Que um cristão, por mais que o seja,
Não tem confiança em Deus!


O que mais me faz falta de Portugal é a poesia na boca do povo.
Roubei esta do Obvious

06 abril 2006

Post Efêmero

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.
Tenho que escolher o que detesto - ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei--de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.

Bernardo Soares

02 abril 2006

Sob o signo do desassossego

Já ensaio há alguns anos um plano. Dizer que vou ali, que já volto e sumir. Simplesmente me misturar à multidão e desaparecer. Já ensaiei isso várias vezes e, num determinado momento, estive mesmo pra executar este plano, mas algo me impediu. Não sei muito bem o que, mas foi muito forte e eu tive dar um passo atrás. Talvez enquanto minha mãezinha estiver viva, eu nunca consiga realizar este sonho. Há quem tire coelhos de cartolas, eu queria simplesmente me fazer sumir pra recomeçar tudo em Macau, Goa ou em algum lugar onde ninguém nunca tenha me visto. Não consigo entender muito bem a atração quase irresistível que tenho por esta idéia. Ela já me persegue há alguns anos e, diferente de outras idéias fixas que já tive, esta nunca me abandonou.
Da próxima vez que me encontrar, pense que talvez seja a última.

15 março 2006

É uma merda depender dos outros.
É como a Tininha diz “seria muito mais fácil se a gente subisse na montanha e simplesmente pudesse viver sozinho.”
Queria ter o poder dos personagens do Herman Hesse: saber meditar, jejuar e esperar...
O fato é que eu já estive na montanha é lá também é uma merda.
Nem o Thoureau agüentou muito tempo no bosque.
Duro mesmo é ter que lamber botas de gente com dinheiro pra ajudar quem não tem nem como se vestir pra pedir alguma coisa.
Duro é bajular políticos e empresários pra financiarem os projetos em que você acredita.
Duro é ser educado com quem é prepotente e ignorante.
Duro é tomar cano dos melhores amigos.
Duro é querer aprovação e amor de quem não liga a mínima pra você.

E o pior de tudo é ter essa música do Damien Rice na minha cabeça o tempo todo.

11 março 2006

À revelia, uma lágrima surgiu no teu olho.
Meus braços sentiram uma atração quase insuportável pelo teu corpo.
Queria te abraçar com força.
Fazer todo aquele choro sair pra te aliviar.
Tua voz embargada me doeu fundo
Tudo que pude fazer foi fingir que não percebi nada daquilo.
E cruzar meus braços com medo que eles agissem por vontade própria.

06 março 2006

Porra, hoje o dia começou tão mal que já decidi encerrar o expediente logo às 9h00 e tirar mais um dia de folga, então se alguém aí precisar de algo, me procure depois de amanhã.

Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,E assim será possível; mas hoje não... Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, O sono da minha vida real, intercalado, O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico... Esta espécie de alma... Só depois de amanhã... Hoje quero preparar-me, Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte... Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... Tenho vontade de chorar,Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã... Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... Depois de amanhã serei outro, A minha vida triunfar-se-á, Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático Serão convocadas por um edital... Mas por um edital de amanhã... Hoje quero dormir, redigirei amanhã... Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância? Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo... Antes, não... Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. Só depois de amanhã... Tenho sono como o frio de um cão vadio. Tenho muito sono. Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...Sim, o porvir...


Álvaro de Campos

05 março 2006

A propósito do Dia Nacional da Poesia, do post anterior e de outras coisas:

Poemas de Arseni Tarkovski ( pai de Andrei Tarkovski)

Agora o verão se foi
E poderia nunca ter vindo.
No sol está quente.
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos
Como uma folha de cinco pontas,
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu
À segurança de suas asas,
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia,
Mas tem de haver mais.


Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém... Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.


Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degrauas por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.

Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.

01 março 2006

Fragmentos portugueses
(Histórias que eu escutei em Portugal entre 2004 e 2005)

José Duarte viveu em Moçambique por 20 anos, “cresceu vendendo vinho com água pros blacks” como ele mesmo dizia. Foi o dono do primeiro mercedes de Lourenço Marques.
Fez a vida, fez família e fez riqueza. Em 75, depois da descolonização exemplar, voltava de um casamento com a família quando viu uma coluna de fumaça no horizonte. A cem metros da sua casa um empregado jogou-se à frente do carro e berrou: “ Dr. , não vai lá não que eles tão matando todo mundo.”
José fez meia volta e rumou pro aeroporto, embarcaram pra Portugal com a roupa do corpo (terno e gravata) e um passaporte onde dizia “português de segunda”.
Com milhares de portugueses voltando, não havia lugar e nem emprego, mas José deu sorte, conseguiu trabalho de porteiro em uma escola na periferia de Lisboa. Com ele ficaram os três filhos adultos vivendo em um quarto na oficina da escola.
Trinta anos depois, José está cego, ainda é porteiro da mesma escola. A única notícia que teve de seus 17 imóveis e 5 carros nestes anos todos, é que um amigo viu um oficial da Frelimo dirigindo seu Mercedes pelas ruas da recém-batizada capital Maputo.

Ao lado da escola viviam a cabo-verdiana Maria e seu filho Gogomir. Quando tinha dezessete anos, Gogomir era sempre visto na Cova da Moura com uns tipos bem suspeitos, Aos dezenove, vizinhos acordaram com Maria aos berros chamando o filho que corria pela estrada de terra com o vídeo-cassete debaixo do braço. “Não chateis, pá. Vou levar pra arranjar”. O vídeo nunca mais foi visto, Gogomir ainda apareceu mais umas duas vezes. Depois disso Maria só viu seu filho de novo no Correio da Manhã numa foto onde se lia “ Mortos em tiroteio com a PSP”.

Quando era criança Gogomir sempre ia às festas da escola e ficava olhando um tipo grande, quase dois metros, de alcunha Bifanas. Bifanas passava o tempo todo do lado da porta de braços cruzados. Ficava sempre olhando para Rute, dois anos mais nova que ele. Em sete anos ninguém nunca tirou Rute pra dançar. Um dia, veio um tipo das Beiras e se engraçou com a garota. Bifanas avançou pra cima do sujeito e fez-lhe a folha. Foi última festa em que Bifanas foi visto.

Desde que tomou uma sova em uma festa na linha de Sintra, Nuno nunca mais colocou os pés no Sul. Depois que terminou o Liceu, foi trabalhar com o pai na fábrica de confecções da Covilhã. A industria prosperou e a família enriqueceu. Enquanto todos iam pra Serra da Estrela no inverno, Nuno ia pra Suíça, e foi lá que ele tomou o primeiro pico de heroína. Gostou, criou o hábito de ficar pedrado de vez em quando. Quando o pai morreu, assumiu os negócios e durante alguns anos tudo correu bem. Até que os chineses chegaram com seus tecidos a preços impossíveis. As coisas começaram a ir mal, e Nuno foi perdendo o controle. Só se sentia bem com a heroína. Em dois anos, perdeu tudo e foi viver com a mãe em um prédio nos arredores do Porto. Sofreu muito, mas graças à metadona e aos remédios psiquiátricos que rouba da mãe, conseguiu largar a droga.

Wong chegou em Portugal em 2003 fugindo de uma ameaça da tríade chinesa. Primeiro, trabalhou em um restaurante chinês na Praça Duque de Saldanha em Lisboa, mas não tinha aptidão pra isso, sempre se irritava com os clientes. Alguns meses depois, abriu uma Loja de Produtos a 1 Euro com dinheiro emprestado e começou a prosperar. Cheio de orgulho e dinheiro, passou a freqüentar a noite lisboeta. No Bairro Alto conheceu Rita e se apaixonou, Cortejou-a por um ano inteiro e quase se matou quando soube que ela era noiva de um contabilista de Tondela. Hoje, Wong pensa em voltar pra China, Talvez seus inimigos já tenham se esquecido dele.

Marco era contabilista em Tondela. Em um fim-de-semana em Lisboa conheceu Rita, corresponderam-se por seis meses, noivaram e casaram. Rita mudou-se pra Tondela e arranjou emprego em uma fábrica de confecções. Ela se sentia feliz, mas queria mesmo era trabalhar com crianças na escola da cidade. Um dia, quando o Marco foi a Lisboa resolver assuntos de um cliente foi assaltado e morreu em decorrência de um tiro. Em 2004, Rita largou a fábrica e prestou concurso para Polícia de Segurança Pública de Coimbra.

27 fevereiro 2006

Está tudo ali, mas você não está vendo.Pode estar mesmo a sua frente e você nem vai notar.Não é que você seja cego dos olhos, é cego de outras faculdades. Não cultivou essas capacidades ao longo dos anos e agora é completamente incapaz de perceber o que pra muita gente é o óbvio.Tem momentos em que é só uma suspeita. Você tem a impressão de que viu algo ali, mas quando olha de novo já não tem certeza. A falta de luz não te permite distinguir os contornos, figura e fundo se misturam, e o que parece um objeto pode muito bem ser uma sombra. Enfim, é impossível estar certo que algo realmente existe ali.
Todo texto tem um subtexto, está ali pra qualquer um ler, mas é espantoso que, dia a dia, menos pessoas se interessam por ele. Essa “leitura velada” é quase sempre muito mais interessante que o texto oficial, mas ninguém se importa mais com isso.
Alguns meses atrás, um escritor famoso iria a uma Livraria FNAC de uma grande cidade para uma palestra e uma sessão de autógrafos. Por algum motivo, chegou muito atrasado e seu agente perguntou ao público se era preferível que o autor distribuísse autógrafos ou que conversasse com os fãs, pois devido ao horário do vôo que o autor pegaria a seguir, seria impossível realizar as duas tarefas. Os mais de quinhentos fãs clamaram pelos autógrafos.O escritor então cochichou algo no ouvido de uma mulher que o acompanhava e recostou-se à cadeira para iniciar a sessão de autógrafos.Enquanto os fãs se amontoavam nas filas para se aproximarem do palco, a mulher saiu discretamente pelos fundos e sorrateiramente passou a se movimentar entre as prateleiras e sempre que se via sozinha, enfiava um pequeno papelzinho branco dentro de algum livro. Os poucos presentes que notaram o que acontecia passaram a segui-la e a procurar os estranhos papéis. Tudo isso durou pouco mais que vinte minutos e a mulher logo voltou ao palco, onde cochichou algo no ouvido do autor que sorriu discretamente. Em um dos papéis, escondido dentro de uma edição de Walden, lia-se em inglês: “A palavra é, em si, menos que o pensamento; o pensamento é menos que a experiência.A palavra é um filtro, e o que passa por ela é despojado de sua melhor parte.” Em outro, estrategicamente colocado no prefácio de Visionary Architects, constava: "Stourley Kracklite sofreu do mesmo mal que Augusto e, por não ser fascista, não comia carne."

Voici le pacte qui les unit : La règle du jeu.

17 dezembro 2005

Finalmente descobri a autora do poema que está junto do rosto da garota oriental na Estação Sumaré do metrô.

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida esta completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

14 outubro 2005

Brasil e Portugal
Relações de uma família problemática.

Toda família tem seus conflitos internos. São irmãos que não se falam, pais que não entendem os filhos, separações traumáticas e etc.
Uma vez, aconteceu de reencontrar um primo que eu não via há muitos anos e simplesmente não o reconheci, tamanho o distanciamento que dois lados de uma mesma família haviam tomado.
Com Brasil e Portugal não é diferente. Como a história é escrita pelos vencedores, muita mentira foi contada sobre séculos de exploração que os países europeus impuseram sobre suas colônias e nos últimos séculos, a mágoa acumulada culminou em processos de independência traumáticos e revisões históricas que ainda estão sendo feitas até hoje.
O que aconteceu com a história da América antes de Colombo? Muito provavelmente foi quase que completamente enterrada com as vítimas dos massacres que ocorreram sistematicamente durante pelo menos dois séculos em solo americano.
E como a mágoa separa, países muitos próximos culturalmente passaram a se tratar como estranhos.
Pra comprovar isso, basta perguntar a um brasileiro sobre música portuguesa, primeiro ele vai ensaiar aquele sotaque do norte de Portugal ( porque da mesma forma que todo brasileiro tem sotaque carioca, todo português tem o sotaque do norte de Portugal e vive trocando o “v” pelo “b” e assobiando no fim das frases) e aí vai te cantar “O Vira”. Se você perguntar a e ele o nome de um cantor, provavelmente ele vai citar a Amália Rodrigues apesar de nunca ter ouvido uma só música dela.
E assim vai...
Em Portugal não é diferente, os únicos representantes da atual cultura brasileira que atravessam o Atlântico (bom, pelo menos algo chega lá) são as produções duvidosas da Rede Globo, os clássicos da MPB e o lixo da Música Pop.
Então um “gajo” pensa: Mas e as instituições devotadas à troca e difusão cultural dos dois paises? Elas devem estar fazendo algo.
Uma visita rápida à Casa de Portugal em São Paulo vai mostrar uma programação ridícula totalmente devotada aos poucos imigrantes (que trocavam os Vs pelos Bs) que ainda estão vivos, e o mesmo vai ocorrer com uma Fundação que existe em Lisboa e que deveria devotar-se à troca cultural entre Brasil e Portugal. Além de estar “encalacrada” num beco escuro do Bairro Alto, suas iniciativas são bem duvidosas e entre seu único projeto futuro está a construção de uma sede em Chelas (?!?).
A mídia é a única que ainda tem como pauta o que acontece nesses países. É sempre notícia quando Portugal tem uma onda de incêndios, quando a corrupção na política brasileira envolve grandes grupos portugueses ou quando chega a altura do carnaval brasileiro, afinal a cultura brasileira se baseia no carnaval, ou não?
Tudo isso não é só pra mostrar a revolta de alguém que não se conforma com a ignorância de portugueses e brasileiros quando o assunto é a cultura lusófona, mas também pra elogiar a iniciativa de uma série de três eventos que vem trazer um pouco da cultura portuguesa contemporânea ao Brasil nesses próximos dias.
Para começar, temos uma exposição que apresenta, em São Paulo, os maiores artistas plásticos da atualidade em Portugal; a seguir, a Mostra de Cinema de São Paulo dedica uma Retrospectiva a Manoel de Oliveira; e para terminar, uma semana de eventos, também em São Paulo, traz conferências e exposições com os maiores nomes da Arquitetura Portuguesa das últimas décadas.
Enquanto o governo de Portugal gradativamente abre as pernas pra Europa e vira as costas pra Brasil e o governo brasileiro faz o mesmo com o Mercosul e esquece com quem já dividiu a mesa, pelo menos alguns poucos atentos acreditam que ainda vale a pena ver o que aquele parente que já morou na sua casa está fazendo ultimamente.


Portugal Novo: Artistas de Hoje e Amanhã
Sob curadoria de Alexandre Melo, traz ao Brasil trabalhos de grandes nomes da cena contemporânea portuguesa, como Helena Almeida, Vasco Araújo, Pedro Cabrita Reis, Filipa César, Rui Chafes, José Pedro Croft, João Louro, Jorge Molder, João Onofre, Paula Rego, Julião Sarmento, João Tabarra, Pedro Tudela e João Pedro Vale (de 22/10 a 6/11).
» Largo General Osório, 66, tel. 222-8968. Ter. a dom., 10h/18h. R$ 4,00 e R$ 2,00. Grátis aos sábados.

Mostra de Cinema de São Paulo - Retrospectiva Manoel de Oliveira
O português Manoel de Oliveira, o mais longevo cineasta em ação, vem a São Paulo para receber homenagens da 29ª Mostra BR de Cinema - Mostra Internacional de Cinema. Ele prestigiará a exibição de seu mais recente filme, Espelho Mágico , e acompanhará a retrospectiva exclusiva de sua filmografia completa. A Mostra ainda lança o livro Manoel de Oliveira , sobre o cineasta, com entrevista e análise de suas obras. O título é resultado de parceria da Mostra com a editora Cosac e Naify.
De 21 de outubro a 3 de novembro de 2005.

Arquitetura Portuguesa Comtemporânea
«Des-continuidade» expõe documentos que manifestam a mutação dos processos conceituais da Arquitetura Contemporânea da Região do Norte de Portugal. Registra e manifesta a dualidade constante entre a absorção de influências externas e o processo de consolidação de uma linguagem própria de tradição moderna. Des-continuidade - 7 a 13 de Novembro - Local do Evento: São Paulo - Centro de Convenções FECOMÉRCIORua Dr. Plínio Barreto 285Bela Vista – São Paulo

14 agosto 2005

Cuba de Arenas
Quando vivi em Lisboa, conheci uma cubana de quem fiquei muito amigo. Era uma amizade quase inevitável, essa de dois latino-americanos vizinhos em um edifício cheio de portugueses.
Conversávamos muito sobre Brasil, sobre Cuba, sobre Fidel, sobre Lula.
Ontem revi Before Night Falls, bio-pic do escritor Reinaldo Arenas na tv. Dono de uma prosa extremamente poética, seus escritos eram comunmente chamados de textos-poesia.
Lembrei muito de minha amiga cubana e de nossas conversas, foi como se eu visse o filme pela primeira vez e como se eu nunca tivesse escutado nada de Arenas.
Mal o filme acabou, vim a Net procurar mais Arenas, matar essa saudade de Cuba que eu nunca conheci.



Reinaldo Arenas
The Parade Ends

" Paseos por las calles que revientan,
pues las cañerías ya no dan más
por entre edificios que hay que esquivar,
pues se nos vienen encima,
por entre hoscos rostros que nos escrutan y sentencian,
por entre establecimientos cerrados,
mercados cerrados,
cines cerrados,
parques cerrados,
cafeterías cerradas.
Exhibiendo a veces carteles (justificaciones) ya polvorientos,
CERRADO POR REFORMAS,
CERRADO POR REPARACIÓN
¿Qué tipo de reparación?
¿Cuándo termina dicha reparación, dicha reforma?
¿Cuándo, por lo menos,
empezará?
Cerrado...cerrado...cerrado... todo cerrado...
Llego, abro los innumerables candados, subo corriendo la improvisada
escalera.
Ahí está, ella, aguardándome.
La descubro, retiro la lona y contemplo sus polvorientas y frías dimensiones.
Le quito el polvo y vuelvo a pasarle la mano.
Con pequeñas palmadas limpio su lomo, su base, sus costados.
Me siento, desesperado, feliz, a su lado, frente a ella,
paso las manos por su teclado, y, rápidamente, todo se pone en marcha.
El ta ta, el tintineo, la música comienza, poco a poco, ya más rápido
ahora, a toda velocidad.
Paredes, árboles, calles,
catedrales, rostros y playas,
celdas, mini celdas,
grandes celdas, noche estrellada, pies
desnudos, pinares, nubes,
centenares, miles,
un millón de cotorras
taburetes y una enredadera.
Todo acude, todo llega, todos vienen.
Los muros se ensanchan, el techo desaparece y, naturalmente, flotas,
flotas, flotas arrancado, arrastrado,
elevado,
llevado, transportado, eternizado,
salvado, en aras, y,
por esa minúscula y constante cadencia,
por esa música,
por ese ta ta incesante. "
Bellotto e Bellini

Que os Titãs são uma das maiores bandas do Pop-Rock brasileiro todos sabem, o que pouca gente sabe é que durante os recessos, ocorridos entre as turnês do grupo, surgiram obras tão grandes ou até maiores que o próprio legado da banda, criadas por seus integrantes individualmente.
Sérgio Britto e Branco Mello fundaram o Kleiderman, banda cult que deu muito o que falar. Marcelo Frommer tornou-se comentarista de futebol e até escreveu o roteiro de uma HQ. Nando Reis iniciou uma carreira solo que deu tão certo que acabaria se tornando sua única carreira com a saída do grupo, mais tarde. Paulo Miklos presenteu o cinema brasileiro com uma atuação genial no filme O Invasor. E por fim, Tony Bellotto arriscou-se em algo que sempre tinha sonhado fazer: tornar-se escritor de livros policiais.
O gênero policial por ser tão peculiar, datado e por ter tido mestres incomparáveis pode ser um terreno perigoso pra qualquer escritor que se aventure por ele. Entre aqueles que se arriscaram, apesar da coragem louvável, poucos conseguiram sucesso.
Bellotto, seguindo a tradição da Literatura Pulp e reverenciando os mestres do gênero policial, seguiu a risca a cartilha, e nesse aspecto as histórias de seu personagem-detetive Bellini não inovam em nada, muito pelo contrário, são uma homenagem rasgada a gênero com todos os clichês que um policial hard-boiled tem direito. A originalidade de sua série, que já conta com três volumes, está na ambientação que tem São Paulo como um personagem onipresente.
Quem conhece bem a cidade vai reencontrar a noite, o submundo e as figurinhas tão comuns da Paulicéia Desvairada, mas vai também descobrir coisas que talvez nunca tivesse notado por trás da correria e do concreto aparente. Coisas como granjas no bairro do Bom Retiro e outros lugares quase irreais.
Dando prosseguimento numa tradição que já contava com nomes como Marcos Rey, Stella Carr e Patrícia Mello, Bellotto apresenta São Paulo em toda sua crueza e verdade, deixando em qualquer paulistano um pouco de orgulho de uma cidade que tem não só monumentos pra apresentar, mas também muita vida e histórias, independente de qualquer juízo de valor.
Àqueles que não conhecem a cidade, deve ficar uma curiosidade intensa de descobrir esse labirinto de ruas e sensações.


Nas três histórias já publicadas, Bellini está sempre presente na figura do detetive particular celebrizada pelo gênero. Leva uma vida de excessos onde as únicas constantes são o blues, o álcool, o sexo e um pragmatismo que chega a incomodar. Cada história mostra também uma abordagem levemente diferente da anterior dando um certo frescor ao gênero.




Bellini e a Esfinge
Quem é Ana Cíntia Lopes? Por que Camila e Dinéia sumiram? O que deseja Fátima? Por que Fabian segue Pompílio? Quem matou o doutor Rafidjian? Qual o segredo de Beatriz? As perguntas acumulam-se na cabeça do detetive Remo Bellini enquanto ele percorre o submundo da cidade de São Paulo em busca de respostas. Aos poucos, os mistérios vão se desvendando de forma surpreendente, até que a decifração do enigma final deixa Bellini perplexo, com um gosto horrível na boca.





Bellini e o Demônio
O detetive paulistano Remo Bellini continua na ativa. Desta vez ele está dividido entre dois casos igualmente intrigantes: localizar um manuscrito perdido de Dashiel Hammett, o grande mestre do romance policial, e desvendar o assassinato da jovem e bela Sílvia Maldini, encontrada com um tiro na testa no banheiro da escola. Sempre ao som de blues, Bellini transita entre São Paulo e Rio, entre ricos sem fama e pobres ilustres, entre algumas conquistas e muitos fracassos amorosos. Nesse caso demoníaco, em que ainda aparecem mais assassinatos, tráfico de drogas e sexo, nada (nem ninguém) é exatamente o que parece.



Belllini e os Espíritos
Um chinês entrega US$ 5 mil ao escritório de investigações do detetive Remo Bellini para que encontre o suposto assassino do advogado Arlindo Galvet, morto em plena corrida de São Silvestre. Desse momento até o final, o foco muda e, ainda que a morte do advogado continue insolúvel, passa-se de encontros e desencontros com a máfia chinesa para um contexto feito de espiritismo, troca de identidade e violência contra a criança.




Além dos três livros, a Saga de Bellini já rendeu um filme com Fabio Assunção no papel principal. Apesar de estar entre o que tem se feito de melhor na produção recente do cinema brasileiro, o filme não chega à altura do livro e altera um ponto nevrálgico da história de uma maneira que desagrada qualquer fã.















Hoje, de tudo que li no jornal, o que mais me chamou a atenção foi a charge do Angeli.
Acho que ela representa muito bem a sensação de desamparo e a falta de esperança que tomou conta de muita gente que eu conheço.

31 julho 2005

Cenas de uma metrópole brasileira:

-Numa tarde de sexta-feira, um homem de barba toca clarinete tranquilamente à sombra de uma árvore junto à Praça do Relógio na USP.

-Em uma noite de um dia de semana normal, um homem vestido de operário de construção civil ( com capacete e tudo), vende maçãs-do-amor em uma bandeja presa ao pescoço, em plena Avenida Paulista.

-Em um ponto de ônibus da Rua da Consolação, numa noite de sábado, um jovem chora compulsivamente. Atrás dele uma porta com uma lâmpada vermelha convida à entrar com o letreiro em neon "RELAX".

-Em uma manhã de quinta, um homem, a frente de um hotel, coloca sua bagagem na traseira de um táxi. Mal ele fecha o porta-malas, o motorista , um velhinho de uns oitenta anos, arranca e deixa o executivo no meio da rua perplexo gesticulando.

-Numa noite qualquer da semana, em um ponto de ônibus da Av. Brigadeiro Luis Antônio, um morcego voa em círculos ao redor de uma árvore. Uma senhora de idade comenta: "Que passarinho grande!".


Algumas notícias que me chamaram a atenção nessa manhã de domingo:
-Filho playboy de Yushchenko causa polêmica na Ucrânia.
-Bush decide manter controle sobre a Internet por tempo indeterminado.
-Rubem Fonseca lança novo volume com Mandrake.
-São Paulo atinge a marca de 40 mi de habitantes.